Não existe neutralidade da rede

redes_ Network Neutrality (ou “neutralidade da rede”) é uma dessas coisas que soam inerentemente bem. Não queremos uma rede refém das grandes operadoras de telecomunicação, que decidiriam, de acordo com apenas sua vontade e interesse financeiro, priorizar esse ou aquele tráfego na rede (provavelmente do seu próprio serviço de vídeo sob demanda). É claro que, se algo é priorizado, o tráfego de menor prioridade acaba enfrentando mais dificuldade para chegar ao destino.

Defensores da neutralidade na rede (entre eles o Google) entendem que as companhias de telefone querem fugir da responsabilidade de melhorar sua infraestrutura para atender as novas demandas dos internautas, conseguindo oferecer um serviço adequado apenas para aqueles que pagarem o necessário para ter seu tráfego em uma “rodovia exclusiva” da internet.

Esse seria um valor cobrado principalmente dos provedores de conteúdo e serviços. Assim, para que um site A tenha vantagem sobre o concorrente B, ele pode pagar para os provedores de acesso e seu site carregará mais rápido. A ideia da neutralidade da rede é criar legislação que proíba isso. O Marco Civil da internet brasileira prevê a neutralidade da rede também, embora o assunto tenha um destaque muito maior nos Estados Unidos.

O problema é que a neutralidade da rede não existe. Talvez a maneira mais fácil de demonstrar isso seja com um ping para o sites do Google e do Baidu (maior site de busca chinês). O ping mede o tempo decorrido até que a rede do site responda um “alô” e é portanto uma medida da velocidade de ida e volta da conexão.

Disparando google.com [64.233.163.104] com 32 bytes de dados:
Resposta de 64.233.163.104: bytes=32 tempo=25ms TTL=53
Resposta de 64.233.163.104: bytes=32 tempo=25ms TTL=53
Resposta de 64.233.163.104: bytes=32 tempo=25ms TTL=53
Resposta de 64.233.163.104: bytes=32 tempo=25ms TTL=53

Disparando baidu.com [220.181.111.85] com 32 bytes de dados:
Resposta de 220.181.111.85: bytes=32 tempo=379ms TTL=47
Resposta de 220.181.111.85: bytes=32 tempo=379ms TTL=47
Resposta de 220.181.111.85: bytes=32 tempo=380ms TTL=47
Resposta de 220.181.111.85: bytes=32 tempo=379ms TTL=47

Claramente o acesso ao Google está muito favorecido – ele não é nada menos que 15 vezes mais rápido.

Isso acontece porque grandes provedores de serviços têm recursos suficientes para montar uma infraestrutura geograficamente distribuída. Em outras palavras, o Google pode montar servidores no Brasil e construir sua rede de tal forma que brasileiros acessem servidores localizados aqui em vez de servidores dos Estados Unidos, que seriam mais lentos. O Baidu não possui, e, por isso, a conexão precisa ir até a China e voltar.

Há inclusive uma empresa especializada nesse tipo de serviço: a Akamai. A Akamai faz um dos usos mais inteligentes da rede para distribuir os conteúdos de seus clientes (que incluem empresas como a CNN, a Apple e a Microsoft). A Akamai possui milhares de servidores distribuídos mundialmente. Internautas acessam esses servidores (que ficam próximos deles, geograficamente), que por sua vez formam uma ponte de alta velocidade com o servidor original (que fica no exterior) e encaminha o arquivo recebido ao internauta. O truque é que o servidor local também armazena o arquivo para que, na próxima vez, os dados sejam recebidos diretamente do servidor local, acelerando ainda mais o processo.

O abuso da vantagem geográfica chega ao absurdo nas bolsas de valores em Wall Street. Existe um data center na rua de frente para a bolsa de valores, que usa sua vantagem geográfica para acessar rapidamente os servidores da bolsa e determinar, com fórmulas matemáticas, papeis que devem ser adquiridos e vendidos automaticamente, gerando lucros para seus donos. Nenhum outro servidor no mundo consegue se atualizar e tomar decisões tão rápidas.

Enquanto a legislação quer obrigar as companhias de telefone a jogar limpo com o que trafega em sua rede, o Google está ativamente instalando cabos de fibra, especialmente nos Estados Unidos, para garantir uma conexão direta com cada provedor individual. Existem os “provedores dos provedores” de internet, que ligam a rede umas as outras (se eu e você, que somos provedores, temos um provedor em comum, a conexão pode passar por esse provedor; se temos uma ligação direta, conexões entre nossos clientes serão mais rápidas e podemos negociar uma interconexão sem remuneração de nenhuma parte). Ao ligar-se com todos os provedores, o Google irá ter sua própria rede, garantindo uma conexão mais rápida (já que ela não passará por terceiros).

Para os provedores, aceitar a oferta de interconexão do Google é muito interessante, porque clientes usam vários gigabytes de dados acessando Gmail, YouTube e outros serviços da companhia. O Google não vai cobrar por esse acesso, já que é do seu interesse que seus sites continuem sendo acessados. Isso significa que o provedor poderá cortar custos e ainda oferecer um serviço melhor aos seus usuários. O Google está planejando oferecer sua imensa rede de fibra em algumas comunidades norte-americanas, que certamente terão um acesso mais rápido ao Google mesmo que apenas pelo fato de que a rede será do próprio Google.

Mas é claro que o Google não está sozinho. Há muitas empresas que usam serviços da Akamai, e até a Wikipedia dispõe de servidores distribuídos geograficamente (além de doadores locais em alguns países, há dois blocos de servidores – um nos EUA e um na Europa). Embora a Coral não seja mais rápida muitas vezes devido ao fato de estar sobrecarregada, é um “milagre” da internet geograficamente distribuída que tal serviço possa existir de graça. Isso porque, embora você não pague nada a mais para acessar um site fora do país, seu provedor paga. Enquanto em acessos locais (dentro do Brasil) muitos provedores possuem interconexão – que tem um custo nulo ou muito baixo -, em acessos para fora do país eles precisam contratar um provedor, igual você precisou contratá-los, e isso tem um custo. A Coral garante aos servidores voluntários brasileiros que eles atenderão mais usuários do Brasil, por exemplo, tornando a manutenção do servidor muito mais barata do que seria para atender uma audiência global.

Não há o que fazer para acabar com a vantagem geográfica – e a ideia aqui não é dizer que algo precisa ser feito. Para quem pensa que a neutralidade irá garantir uma concorrência maior na rede, uma chance mais realista de pequenos competirem com os grandes, isso não é verdade. De fato, o Baidu provavelmente conseguiria, por um valor muito inferior do que criar uma nova infraestrutura, priorizar tráfego no Brasil para diminuir a vantagem do Google, ou seja, ele teria mais chances de competir caso não houvesse a neutralidade tal como a entendemos hoje.

Mas a existência de tráfego priorizado dá espaço para todo tipo de abuso – abusos com os quais muitos usuários, especialistas e provedores de conteúdo não querem ter de lidar. Chamar uma internet sem priorização de tráfego de “neutra”, porém, é um trabalho quase digno do Ministério da Verdade concebido por aqueles que certamente irão se beneficiar com essa falsa “neutralidade”. Em qualquer cenário, quem tem dinheiro suficiente poderá usufruir de uma infraestrutura mais rápida.

Fonte:Desmonta&CIA

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