Saiba como construir carreira de TI em empresas públicas

Trabalhar em companhias estatais é o objetivo de muitos brasileiros. Entenda a lógica por trás da carreira no setor na área de tecnologia

Nos últimos anos, quem acompanhou os editais de concursos públicos percebeu uma quantidade cada vez maior de vagas para cargos de nível superior em TI. A tendência chama a atenção não apenas por demonstrar que o setor está mais empenhado em captar talentos na área, mas também por alguns salários oferecidos, muitas vezes superiores aos da iniciativa privada. Um exemplo é o concurso realizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), no ano passado, em que graduados em tecnologia da informação, análise de sistemas, sistemas de informação, engenharia da computação ou ciência da computação disputaram vagas de analista com salário inicial de R$ 9.552,00. Nada mal para quem já se sentia atraído pela estabilidade e outra série de direitos restritos ao funcionalismo público.

Em quantidade, as vagas específicas ainda são pouco significativas. A boa notícia é que este número tende a aumentar. Enquanto isso, aqueles em fase inicial de carreira dispostos a conquistar seu espaço no setor público podem disputar vagas em carreiras básicas, fora da área de TI. Uma vez aprovados e contratados, podem direcionar o desenvolvimento para a sua área de formação, por meio de capacitação e da participação em concursos internos. No Banco do Brasil, por exemplo, não há seleção pública para cargos específicos de TI. “Todo profissional do banco entra por concurso na carreira de escriturário e vai trabalhar em agência. Foi assim que entrei, em 1986”, diz Anderson Luis Cambraia Itaborahy, gerente-executivo do projeto de governança de TI da instituição.

Itaborahy, que se formou engenheiro elétrico quando já estava no banco, conta como se desenvolveu e foi parar na área tecnológica, depois de passar por departamentos diversos, como o de crédito rural. “Eu estudava informática por conta própria e me interessei muito pela carreira de TI”, revela. A oportunidade surgiu seis anos após o seu ingresso na instituição, quando houve um concurso interno nacional para a área.
O executivo foi aprovado, enviado para um curso de capacitação e assumiu função em Belo Horizonte, em 1992. Posteriormente, foi transferido para Brasília, na ocasião em que toda a TI da instituição foi concentrada no Distrito Federal. “É assim que os profissionais ingressam e crescem na TI do BB. Depende do surgimento de vagas e de processo seletivo interno, seja mais formal, seja coordenado pela gerência. Se aprovado, ele muda de função, não de carreira. No ramo técnico, por exemplo, começa como assistente de tecnologia, passa a assessor júnior e assim por diante”, conta Itaborahy. Ele acrescenta que, eventualmente, o departamento recruta de outra área alguém com reconhecida experiência. “Mas a verdade é que nem todos os graduados em computação e tecnologia do banco estão trabalhando em TI”, diz.

O gerente afirma que o banco investe pesado na qualificação dos seus profissionais, inclusive por meio de universidade corporativa. Segundo ele, é comum a própria área de TI se adiantar e montar cursos para, em seguida, credenciá-los na universidade corporativa. A empresa também patrocina cursos de especialização em universidades de primeira linha. “Eu mesmo fiz pós-graduação em engenharia de software pela USP, em uma turma fechada, e de sistema de informação na FGV, ambos patrocinados pelo BB. Mas isto não significa promoção automática. O que dá é uma pontuação que pode ser benéfica em um processo de concorrência”, revela.

Para o gerente, a maior vantagem de trabalhar na TI do BB é o fato de ser uma grande empresa. “Mais do que ser pública, é uma corporação que investe pesado em inovação e está à frente em muitos aspectos nessa área”, comenta. Além disso, ele destaca os benefícios óbvios, como a certeza de uma carreira longa, o que, além da segurança, permite um conhecimento da empresa e dos seus objetivos em um nível pouco comum na iniciativa privada. “Se a gente olha o conjunto de vantagens e remuneração, na média, o banco está igual ou melhor do que o mercado. Claro que vários talentos nossos, como os especialistas em tecnologias específicas, ganhariam mais nas empresas privadas”, compara. Por outro lado, Itaborahy reconhece que a estabilidade na carreira pode trazer limitações.

Desafios motivadores
Rosana Watanabe Hanada, gerente nacional de informações de TI da Caixa Econômica Federal (CEF), indica aos interessados em ingressar no banco que os desafios tecnológicos são maiores do que em outras empresas do setor privado “porque não se limitam ao retorno financeiro, uma vez que se trata de um banco 100% público e um dos principais agentes de políticas públicas do governo federal”, explica.

A gerente informa que a Caixa e outros órgãos do setor público no Brasil vêm promovendo uma renovação no seu quadro de pessoal, a partir da realização de concursos. Há uma busca por profissionais altamente capacitados e que possam escalar gradualmente posições na empresa. Quanto aos atrativos para a área de TI, Rosana argumenta que não estão restritos somente às possibilidades de ganho financeiro. “Os próprios desafios são motivadores, porque trazem grandes oportunidades para o profissional, dando-lhe acesso a tecnologias inovadoras e permitindo, inclusive, que seja protagonista tanto da mudança social quanto da liderança internacional do Brasil em alguns setores de TI”, analisa. Para ela, o sentimento de pertencer a uma instituição responsável pela implantação das políticas públicas do governo federal é uma grande motivação para se trabalhar no setor público.

O banco possui um dos maiores complexos computacionais das Américas. Muitos dos seus projetos de TI se tornam cases conhecidos no mercado, pela inovação e pelo pioneirismo. Por trás desta atuação, há pesados investimentos tanto em tecnologia quanto em pessoas. O ingresso no quadro de empregados se dá exclusivamente por concurso público, existindo um polo específico de TI. Já a ascensão profissional acontece por mérito ou antiguidade (promoção) ou por meio de processos seletivos internos para acesso a um plano de cargos comissionados, diferenciados em termos de responsabilidade e complexidade. “Todos os empregados que possuem os requisitos exigidos para o cargo em comissão podem concorrer. Inclusive, estamos prestes a lançar um novo concurso para buscar profissionais específicos para atuar na área de TI”, avisa.

A executiva diz que há na CEF uma priorização para a tecnologia da informação. Os empregados lotados nas unidades vinculadas à vice-presidência de TI têm condições diferenciadas para acesso aos cargos em comissão da área. “Nesse processo, são reconhecidas as suas experiências externas.”

Rosana chama atenção para o fato de que a estabilidade, uma das diferenças básicas do emprego público em relação ao setor privado, proporciona a possibilidade de planejar o crescimento numa carreira de uma área específica. Outra diferença do setor reside nos valores que devem nortear o atendimento. “O profissional deve ter em mente que o foco do setor público é o benefício para sociedade como um todo”, diz. Além disto, existe uma necessidade de adaptação às mudanças cíclicas de gestão, relativas a trocas de governo. “Este é um dos principais desafios”, julga a gerente. Como estímulo, ela informa que a Caixa incentiva e apoia a formação acadêmica e o desenvolvimento profissional de seus empregados, oferecendo cursos e universidade corporativa virtual. “O banco também viabiliza um plano de previdência complementar ao benefício do INSS e o Saúde Caixa, um plano de saúde que contempla o empregado e sua família”, explica.

Nem tão diferente assim
Na área de TI da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) desde 1979, Maurício Loureiro, superintendente de tecnologia da informação, avisa que profissionais de TI de empresas públicas enfrentam desafios muito similares aos profissionais da iniciativa privada. “Como em qualquer empresa, o profissional de TI deve procurar deixar de ser apenas um ótimo técnico e buscar atualização permanente, sintonia com o mercado, agilidade e flexibilidade no atendimento das demandas internas, conhecimento da empresa e alinhamento com as áreas de negócio. São fatores essenciais para o crescimento na área”, relata o superintendente, que lidera um time de 235 profissionais, a maior parte alocada nas áreas de operação, infraestrutura e telecom (48%) e desenvolvimento e manutenção de sistemas (39%).

As perspectivas de crescimento dessa equipe são as mesmas dos demais profissionais da empresa, pois estão vinculadas a uma única política corporativa de RH. Segundo Loureiro, a realização de projetos inovadores tem exigido da Sabesp muitos investimentos em treinamento e capacitação, com benefícios para os profissionais. “Em 2010, traçamos planos com o objetivo de aprimorar a comunicação interna e externa, a multiplicação de conhecimentos e a capacitação dos profissionais da superintendência. Em 2009, realizamos o I Encontro de TI, com palestras proferidas por profissionais do mercado sobre temas atuais de TI”, conta.

Sem ter passado pela experiência privada, Loureiro comenta sobre as habilidades que o CIO precisa ter para atuar em um setor onde há menos liberdade para investir com rapidez na modernização da TI, devido à exigência de licitações, por exemplo. “O profissional que toma decisão precisa desenvolver espírito empreendedor, ter habilidade para negociar com o mercado, poder de convencimento junto à alta direção para ‘vender” os projetos e capacidade de planejar a TI para estar em sincronia com a organização”, enumera.

Empenhado em tornar a TI da Sabesp menos reativa, Loureiro acredita que o conhecimento técnico em um determinado nível para administrar o ambiente tecnológico é importante, mas não imprescindível. “É preciso ter conhecimento dos negócios da organização, ter liderança junto ao seu time e conhecer o funcionamento das principais áreas da empresa”, explica. Como dica para crescimento na carreira, ele ressalta, além dos estudos formais, a participação em eventos e congressos que abordam as tendências no setor. “Nestes eventos tenho oportunidade de trocar experiências com outros profissionais; isto é muito bom”, diz.

Saber esperar
Fátima Motta, professora dos cursos de gestão de pessoas da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e sócia-diretora da F&M Consultores, ressalta o papel do CIO na gestão e motivação dos profissionais de TI das empresas públicas. Segundo ela, o processo de crescimento interno pode ser altamente desmotivador, uma vez que as pessoas têm de esperar muito tempo para realizar concursos internos que lhes permitem subir degraus da carreira. “Neste cenário, o CIO tem de ter habilidade interpessoal, saber gerir e motivar pessoas, além da visão estratégica com foco em inovação”, diz. Para a consultora, os CIOS em geral são formados para serem mais técnicos. “Muitos problemas quanto à orientação dos subordinados, delegação de poderes, resolução de pequenos problemas ou motivação vêm dessa formação mais técnica e menos comportamental”, comenta.

Como especialista na formação e desenvolvimento de lideranças e como coaching de executivos, Fátima percebe que há muito trabalho isolado em TI. “Isso não é bom. Crescer nessa carreira significa saber se relacionar e dialogar com os outros, independentemente de o cargo ser público ou privado”, finaliza.

Fonte: Desmonta&CIA

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